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Entrevista Professora Maria Teresa E. Mantoan
A inclusão para todos ainda é um sonho a ser perseguido, mas para alguns é uma busca constante, uma verdadeira jornada em busca da igualdade e respeito ao próximo.
O sistema educacional brasileiro evoluiu e tem passado por grandes mudanças nos últimos anos, conseguido cada vez mais respeitar a diversidade, garantindo a convivência e a aprendizagem de todos os alunos.
Quando o assunto é educação inclusiva um dos nomes citados sobre o tema é o da professora Maria Teresa Egler Mantoan .
Atua como professora desde 1961, tendo lecionado em todos os níveis e etapas de ensino. Pedagoga, Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.
Pioneira na defesa do direito de todos à educação. Professora universitária desde 1988 , desde 1990 se dedicando ao assunto nas áreas da pesquisa, docência e extensão da Faculdade de Educação da UNICAMP.
Atualmente coordena um laboratório de pesquisas na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diferença (LEPED).
Trata-se de uma pessoa que realmente gosta do que faz, sendo orientadora de teses de Mestrado, Doutorado e de Pós-graduação em Educação da UNICAMP
Recebeu a Medalha da Ordem do Mérito Nacional de Educação pelos serviços prestados à educação no Brasil.
Escreveu livros e inúmeros artigos em revistas nacionais e internacionais, participando intensamente de muitos eventos, congressos de educação internacionais e nacionais.
-Quando a senhora começou a trabalhar com educação inclusiva? O que a motivou e quais mudanças significativas a senhora viu nesse tempo? Houve alguma evolução?
-A ideia de uma escola para todos, sem exclusões sob qualquer pretexto, foi uma das conclusões de minha dissertação de Mestrado nos anos 80. O tema de minha pesquisa na ocasião e, posteriormente aprofundado em minha tese de Doutorado, foi o desenvolvimento da inteligência de pessoas com deficiência intelectual e a solicitação do meio escolar. Ao final desses estudos, constatei que os sujeitos com os quais trabalhei obtiveram ganhos relevantes do ponto de vista cognitivo, fato que me levou a propor uma mudança na educação escolar desses alunos: sair da escola especial e ingressar na escola comum , dado que nestas, a solicitação do meio, o ambiente de trabalho escolar favoreciam o aproveitamento de alunos com essa deficiência.
Foi surpreendente o que me aconteceu e, a partir dessas conclusões, resolvi me aprofundar em estudos sobre a relevância do meio escolar sobre a inteligência de todo e qualquer aluno, em especial os com deficiência.
Saí pelo mundo, estudei as políticas de ensino comum e especial, conheci aquelas que tinham como objetivo a inclusão de alunos com deficiência na escola comum.
Voltei para o Brasil e comecei a contestar as escolas especiais e a necessidade de continuarem abrigando alunos com deficiência e até mesmo com dificuldades de aprendizagem, nas suas salas de aula. Contestei também as classes especiais, que recolhiam esses alunos nas suas salas, onde continuavam na escola, mas à parte dos demais colegas.
Juntei-me a pais esclarecidos que tinham filhos com deficiência e que estudavam em escolas e classes especiais. A maioria desses pais tinha filhos com a Síndrome de Down.
Dentre esses pais havia juristas, médicos, professores, profissionais das mais diferentes áreas e formamos um grupo de trabalho para conhecer do ponto de vista legal e educacional os direitos desses alunos à educação. Partimos da Constituição de 1988 e nela encontramos nosso suporte para alavancar a ideia de uma escola inclusiva para alunos com deficiência.
Fomos seguindo nessa luta, durante os primeiros anos deste século e, em 2008, o Ministro da Educação, na época o Prof. Fernando Haddad, constituiu um grupo de trabalho para redigir a Política Nacional de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva ( PNEEPEI) composto por professores, pais, nos quais me incluíram.
Desde então tenho trabalhado incessantemente, no campo da pesquisa, da docência e da Extensão, apoiando e criando novos projetos relativos à implementação dessa Política.
A inclusão de estudantes com deficiência, transtornos do espectro do autismo e com superdotação /altas habilidades – público alvo da PNEEPEI povoaram nossas escolas comuns, a despeito de muita reação das escolas especiais, que perderam a maioria de seus alunos. Mais de 80% dos alunos das escolas especiais migraram para as escolas comuns! O tempo tem mostrado a diferença que existe entre um aluno diferenciado pela sua deficiência e um aluno que vai à escola de todos e tem assegurado o seu lugar, como os demais, porque é seu direito.
Maior do que essa virada, só mesmo aquela que nos mostra que esses alunos continuam nas escolas comuns, apesar de resistências da própria escola, de seus professores, diretores…
Um dos pontos mais fortes de nossa luta pela inclusão seja de pessoas com ou sem deficiência é formar professores para acolher as diferenças de todos os seus alunos e não as de alguns; é mudar a cultura da escola comum, fazer com que essa escola reveja seus fins, métodos, práticas, para que seja um lugar de criação, de formação das novas gerações. Este é o desafio da inclusão.
E para que isso ocorra, o tempo tem de ser respeitado, porque a virada da escola para ser uma escola de todos, sem discriminações, exclusões não acontece de repente. Insisto em que há de existir um tempo para essa mudança radical.
Não existe uma boa inclusão, mas uma boa escola, que só é boa, se dá conta da diferença de todos nós e não da diferença de alguns.
Somos todos diferentes, seres singulares em constante transformação.
A escola inclusiva é a escola que reconhece essa peculiaridade de cada ser humano. Existem escolas comuns e professores que não conseguem perceber que cada aluno é um aluno, na sua diferença. Alguém incomparável e que não se reduz a um modelo, a um padrão, a uma identidade fixa. Uma deficiência não se reproduz exatamente em duas pessoas que têm um mesmo diagnóstico, – uma pessoa com síndrome de Down, de Asperger, uma pessoa com uma mesma deficiência física não são as mesmas pessoas e ainda mais, não se reduzem por inteiro a um de suas características. Somos seres encarnados e não nomes de uma tabela desta ou daquela deficiência etc.
Em uma palavra, a escola para todos é a escola das diferenças de todos nós.
Nesse tempo, em que trabalho pela inclusão, a mudança mais significativa foi esta: a observância do direito de todos a uma educação, que respeita a capacidade de cada um tem de aprender com seus pares da mesma geração. E o que estamos conseguindo, apesar da torcida contrária, é , no tempo possível, reverter a compreensão dos professores, de modo que possamos ter quadros de docentes, em todos os níveis de ensino – da Educação Infantil à Universidade que estão, aos poucos entendendo que a diferença de cada um muda tudo, muda a escola por dentro. Muda a escola em sua maneira de ensinar.
– Na sua visão, a frequência dessas pessoas na escola regular traz benefícios para todos? Se a deficiência é apenas uma característica da pessoa, como ver e superar o preconceito com esse público?
Os benefícios trazidos pela inclusão não são os benefícios que as pessoas com deficiência podem trazer para a escola. Seria novamente diferenciá-los pelo que a deficiência traz para os demais alunos, professores, práticas. Ninguém pode usar de alguém para se beneficiar, mas podemos nos beneficiar mutuamente, quando uma experiência educacional considera a diferença de cada um e a riqueza desse encontro.
-Inclusão e educação caminham juntas?
“Escola e inclusão caminham juntas em sociedades que não excluem.” “ Daí a importância de se garantir que as escolas sejam para todos, com todo o custo embutido nessa nova escola.
Os trabalhos e parcerias têm-se multiplicado . Vamos em frente.”
– Como a senhora vê o mercado de trabalho para o público deficiente hoje?
“Acho que o mercado de trabalho ainda está garantido em muitos casos, pelas cotas. Mas temos de considerar que as pessoas que estão buscando trabalho são aqueles que frequentaram e ainda frequentam escolas especiais para se formarem. O ensino médio e o Universitário estão aos poucos se abrindo para a inclusão e , novamente, é questão de tempo. Mas estamos caminhando e há casos de sucesso. Outro grande objetivo é a vida independente, na fase adulta. A inclusão abre flancos e nos intimam a buscar saídas que não eram sequer cogitadas.”
– A utilização da mídia, cibercultura e de novas tecnologias podem trazer quais ganhos a esse público?
“Novas tecnologias podem ser grandes aliados quando se busca garantir a todos, pessoas com e sem deficiência, recursos, apoios, que garantam a acessibilidade e a participação de cada um em um projeto de vida social inclusiva.”
-Qual mensagem a inclusão pode nos deixar hoje?
“A inclusão é uma real oportunidade de praticarmos uma hospitalidade incondicional e de propiciarmos reais ganhos civilizatórios às novas gerações.”
